Rotina e planejamento são temas que despertam muito interesse ao longo da minha caminhada até aqui, que eu chamo de “é só o começo”. Mas ainda neste começo dos 10 primeiros anos, sinto que essa pauta é um dos meus pontos fortes: desvendar como planejamento e organização de tarefas pode jogar a meu favor, me ajudando a realizar ideias de uma forma sustentável e me mantendo ativa dentro do meu nível de produtividade da vez. Sempre encarei esse agenda como um braço do autoconhecimento, sem me observar profundamente e me tornar uma doutoranda de mim mesma eu jamais saberia quanto tempo eu gasto para fazer determinada coisa; ou se eu gosto de verdade de me envolver com um certo job; ou até se escrever durante a manhã é mais fluido mentalmente do que durante a tarde após meu almoço. Me observar diariamente, considerar meu humor, meu ciclo mestrual, minha personalidade, minhas inclinações de interesse quando uma mosca passa e infinitas nuances que dançam ao longo do meu dia, é a minha forma de ficar cada vez melhor em preencher o meu planner. Estou buscando um pós-doc nessa disciplina e recomendo fortemente que criadoras fiquem boas nessa “faculdade”. Este é o meu conselho imutável.

Guardo inúmeras memórias fortes da época de escola, uma delas do meu maior pesadelo: a disciplina Geografia. Foi numa manhã de aula, diante do professor Luiz Gustavo (que era um fofo!) que peguei minha primeira prova abaixo da média: 0,7 ou sete décimos para os íntimos. Sim, a prova valia 7 e eu acertei apenas uma questão entre 10. Aquela foi uma das minhas primeiras lembranças de humilhação no colégio, eu acabara de inaugurar a nota mais baixa de uma aluna na sétima série. Nunca me esqueci do olhar de solidariedade do Luiz quando me entregou a prova, ele parecia dizer com os olhos “fica tranquila, isso é só uma prova e não vai te marcar pra sempre”, eu adorava ele. Adoraria poder ser uma boa aluna numa matéria que eu gostava do professor. Mas não consegui, repetia incansavelmente pra tentar amenizar minha vergonha pública entre os colegas imperdoáveis: “geografia não é meu forte, nunca entenderei”, ri de nervoso, debochei de mim mesma como d’habitude e tentei fingir que estava lidando bem com aquele buraco que se abria ao tirar os olhos do professor e caminhar até a minha mesa com uma folha na mão que parecia ter o peso de um elefante.

Mas a verdade é que voltei pra casa arruinada, chorei tanto, senti tanta vergonha por ser a mais “burra da sala” – eu não nasci pra entender o que são placas tectônicas mesmo, nunca passarei no vestibular. Você já sabe da minha sorte de ter um lar que transborda acolhimento e amor, recebi muito amparo dos meus pais que tentavam me convencer de que aquilo era só uma prova de colégio e que aquela nota não representava o que eu realmente sou. Fica traquila, você recupera, você sempre recupera pois é esforçada e responsável, tente não sofrer por isso. Mas a verdade é que eu não conseguia dissociar o que eu era daqueles sete décimos – geografia se tornou a minha maior inimiga até o terceiro ano, um fantasma impiedoso. Minha primeira experiência com perda de média se deu ali na sétima série, eu ainda queria ser perfeita e esperava me formar balançando a bandeira de que nunca peguei recuperação na vida (e pra ganhar validação em qual palco afinal de contas, hein adultos? A gente não sabe é nada dessa vida quando somos adolescentes). Sofri e nunca esqueci da insígnia dourada e brilhante que ganhei: Amandinha pior aluna em geografia, parabéns pelos feitos. VIVA. (risos mas poderia ser choros kkk)

Desabotoei esse broche dourado da minha jaqueta jeans quando comecei a me interessar pela língua francesa e sonhar em viajar de avião, pensei – quer saber vou tentar aprender geografia na prática já que na teoria não deu muito certo. E aí hoje sou aquela menina que não pode responder quiz sobre capitais e não entende porque conhecer sobre placas tectônicas é mais importante do que conhecer sobre nossos próprios territórios, a começar por quem somos aqui dentro. Temos tantos sentimentos que colidem e também causam grandes erupções de vulcões. Me interessa estudar territórios íntimos, os que me ajudam a transitar pela vida e exercer a artista que escolhi ser. Talvez estudar essa disciplina não exija tantos pré-requisitos, a gente pode seguir no nosso tempo, estabelecer links que destravam novas fases do game Vida e que nos trazem mais ensinamento do que gabaritar uma prova. Estudar a minha própria geografia é uma das matérias mais apaixonantes dessa “facul”, nessa sim eu mergulhei de cabeça e senti até que fiquei boa. E é essa dedicação que me ajuda no planejamento e na minha rotina criativa, não poderia dizer nada mais além disso. Não uso métodos, nem reloginhos de produtividade, acesso a intimidade com quem sou o no que sou boa para ordenar funções segundo minhas regras, sem mais. E esse é o tema do episódio Minha Rotina Minhas Regras da Série Trajetórias, é só terminar de me ouvir e deixar o episódio logo aqui abaixo começar.

Talvez se eu encontrasse o Luiz Gustavo hoje ele até gostasse dos pratinhos de montanhas que ando pintando, sinto que ele tinha sensibilidade para apreciar arte, juro. (risos nostálgicos) Talveeez, mas isso é só um palpite barato mesmo, ele seja uma figura mítica que fez parte da minha vida para eu me sentir no fundo de um poço escuro e dali chamar geografia de pesadelo para ao vez de mergulhar lá fora, mergulhar aqui dentro – como um sonho simbólico que abre um portal. Talvez esse sete décimos nem tenha existido, bem que minha mãe me avisou. Será?

Nada contra pessoas que eram boas em geografia, vocês sempre foram meus grandes ídolos na adolescência, ao lado de Charlie Brown e Simple Plan, estavam vocês. Grandes seres. Um dia te conto da minha relação com física e química, prepara o lenço. Este foi um texto que escrevi na minha newsletter, onde converso toda sexta sobre coisas que o meu feed não mostra. Assine também neste endereço: amandamol.com.br/newsletter Bisous e até breve, Amanda.

0
    0
    Carrinho
    Seu carrinho está vazio